Se esse cenário se confirmar nas urnas, será uma decisão legítima dos eleitores. O que merece debate é o papel desempenhado por parte da imprensa na construção dessa narrativa de inevitabilidade.
Ao acompanhar determinados veículos, o leitor tem a impressão de viver em um estado onde os problemas de segurança pública foram solucionados, a criminalidade está sob controle e a população circula tranquilamente pelas ruas. Mas basta conversar com moradores da capital, da região metropolitana ou do litoral para ouvir relatos bem diferentes. Roubos de celulares, furtos de veículos, assaltos e a sensação de insegurança continuam presentes no cotidiano de milhões de paulistas. Vota e meia a imprensa conta em letras miúdas um assalto em alguma residência em um bairro nobre de São Paulo.A notícia ruim não dura meia hora. Em seguida, já aparece um governador sorridente na mídia e geralmente criticando o governo federal.
Toda administração possui acertos e erros. O problema surge quando os acertos recebem ampla exposição e os problemas parecem perder relevância editorial.
A mesma questão pode ser observada na cobertura de administrações municipais. Governos têm o direito de divulgar suas ações por meio de publicidade institucional, prática prevista em lei. Mas o cidadão também tem o direito de questionar se existe uma distância adequada entre a comunicação oficial e a cobertura jornalística.
Enquanto o Rio de Janeiro frequentemente ocupa espaço nacional como símbolo da violência urbana, São Paulo muitas vezes é retratada como um modelo de gestão e eficiência. A realidade, porém, é mais complexa. Nenhum estado do tamanho de São Paulo está imune aos desafios da segurança pública, e ignorar esses problemas não contribui para sua solução.
Uma imprensa livre é essencial para a democracia. Mas sua credibilidade depende da disposição de fiscalizar todos os governos com o mesmo rigor, independentemente de afinidades políticas, econômicas ou ideológicas. Quando a cobertura passa a transmitir a sensação de que uma eleição já foi decidida antes do debate público começar, a sociedade tem motivos para refletir sobre o equilíbrio dessa cobertura.
Eleições devem ser decididas pelos eleitores nas urnas, não pelas expectativas criadas nas manchetes.





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