Pages

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Haddad: o que você faria se só te restassem 86 dias?

O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
(...)
Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria
(...)
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
(O último dia - de Paulinho Moska)
Me perguntei o que eu faria se eu fosse o Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, e me lembrei da música acima.

Primeiro vamos separar as coisas: perder eleições acontece, não é o fim do mundo como na música, principalmente para quem sai sem máculas como Haddad. Ele perdeu não foi por defeitos, nem por seus poucos erros. Foi por incompreensão e desconhecimento, pela disparidade de informação, com jornalismo massacrando ele e tudo ligado à ele durante quatro anos no rádio, tvs, jornais, etc. Todo dia tinha Datena, Russomanno e Marcelo Rezende mostrando filas da saúde, mas escondendo que a fila era maior antes e diminuiu bastante com Haddad na prefeitura. A campanha foi encurtada pela lei e ainda por cima Haddad foi prejudicado até na manipulação do debate da Globo dando 76% de tempo a mais para Dória.

Mesmo assim até adversários políticos atacam a gestão, apesar de dizerem que vão continuar a maioria das política públicas. Atacam o PT. Mas ninguém ataca a honestidade e integridade de Haddad. Por isso ele sai ainda como uma grande liderança política de oposição e com grande futuro.

Então vou dizer o que eu faria se fosse ele, faltando os 86 dias que faltam para terminar o mandato: passaria o tempo todo na rua, junto ao povo. E 99% do tempo nas periferias. De manhã até a noite, sábado, domingo e feriados. E levaria junto alguns secretários para fazer o mesmo.

Faria a transição de governo junto ao povo, pelo povo e para o povo.

Deixaria os assessores técnicos nos gabinetes para cuidar da burocracia e fazer a transição institucional de governo.

Visitaria 3, 4, 5 ou 6 obras por dia. Visitaria unidades de saúde e escolas em funcionamento. Conversaria com os trabalhadores, professores, alunos, com os moradores dos bairros. Almoçaria e jantaria no comércio do bairro.

Fora do horário do rush e nos fins de semana, quando dá para conversar sem ônibus lotado, circularia de ônibus para conversar com as pessoas no trajeto. Nos fins de semana visitaria os parques, praças, bibliotecas e espaços culturais e esportivos.

Conversaria muito com pessoas do povo. Explicaria que não somos golpistas e o voto é sagrado. Que quem sou eu para dizer como cada um deve votar. Mas gostaria de ouvir o que os cidadãos acharam que ficou faltando fazer, para preferirem outro prefeito, porque minha intenção (do prefeito) foi governar totalmente voltado para vocês.

Explicaria o que foi feito naquele bairro e perguntaria se ficaram sabendo. Explicaria as limitações do que não teve como ser feito, ou mesmo admitiria o que poderia ser feito e faria uma autocrítica ali na frente do cidadão. Até resolveria na hora pequenos problemas como telefonar dando ordens para tapar buraco, trocar lâmpada queimada de poste, etc.

Explicaria que, como cidadão sem mandato, continuaria lutando ao lado deles por benfeitorias e por melhora na qualidade de vida, por melhores oportunidades para todos. Explicaria que o novo prefeito eleito tem uma visão empresarial da cidade que não valoriza os espaços comunitários e equipamentos públicos gratuitos que pertencem ao povo. Por isso a tendência é haver retrocesso na melhoria dos bairros e até na educação pública, na saúde pública, na moradia popular, e até na atração de empregos para a periferia.

Diria até que o resultado das urnas encoraja retrocessos nacionais com perdas de direitos que estão sendo votados no Congresso.

Diria que para não haver retrocesso e para a periferia não ficar abandonada à própria sorte, a população precisa se organizar e se mobilizar para conquistar as coisas na cidade e no país. E que podem contar com ele como mais um militante para contribuir nesta organização e na luta pelas boas causas, mesmo sem mandato.

Ah... se alguém da imprensa quiser entrevistar, que acompanhe o prefeito nos ônibus, nas praças, nas ruas, ou entreviste por telefone celular. Nada de entrevista em gabinete e muito menos em redações. Se fosse eu não haveria agenda livre para isso até dia 1o. de janeiro.

Por que eu faria isso?

Porque é muito mais fácil um cidadão descrente na política dar ouvidos e falar com sinceridade à um prefeito que perdeu a eleição e mesmo assim vai lá no bairro dele, dizendo que ele é importante, do que durante a campanha eleitoral quando todo tipo de político aparece em busca de votos.

É a melhor hora para conseguir esclarecer a diferença de dois projetos diferentes de cidade e de país. É a melhor hora do que podemos chamar de conscientização política e de colocar em prática mais participação popular, por haver mais receptividade. É a melhor hora para mostrar quem está do lado de quem.

Se Haddad fizer isso nos 86 dias que faltam, é perigoso até de muitos eleitores dizerem: "Ih!.. acho que votamos no cara errado". Isso, antes mesmo do tucano tomar posse.

A luta política é travada o tempo todo para buscar as transformações que a maioria da sociedade deseja. O período eleitoral é só uma das muitas batalhas. A luta pelo que se acredita ser um mundo melhor continua, ganhando ou perdendo, sendo governo ou oposição.

Perder eleição é, no máximo, fim de um ciclo e início de outro.

1 Comentários:

Mary Silva disse...

Perfeito, simplesmente perfeito!!!

Postar um comentário


Meus queridos e minhas queridas leitoras

Não publicamos comentários anônimos

Obrigada pela colaboração