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domingo, 28 de junho de 2015

Jatos que mancham


É preciso estar muito entregue ao sentimento de vingança para não perceber certo sadismo na Lava Jato

Janio de Freitas

Como inquérito "sob segredo de Justiça", a Operação Lava Jato lembra melhor uma agência de propaganda. Ou, em tempos da pedante expressão "crise hídrica", traz a memória saudosa de uma adutora sem seca.

Em princípio, os vazamentos seriam uma transgressão favorável à opinião pública ansiosa por um sistema policial/judicial sem as impunidades tradicionais. Mas, com o jorro contínuo dos tais vazamentos, nos desvãos do sensacionalismo não cessam os indícios que fazem a "nova Justiça" -- a dos juízes e procuradores/promotores da nova geração -- um perigo equivalente à velha Justiça acusada de discriminação social e inoperância judicial.

É preciso estar muito entregue ao sentimento de vingança para não perceber um certo sadismo na Lava Jato. O exemplo mais perceptível e menos importante: as prisões nas sextas-feiras, para um fim de semana apenas de expectativa penosa do preso ainda sem culpa comprovada. Depois, a distribuição de insinuações e informações a partir de mera menção por um dos inescrupulosos delatores, do tipo "Fulano recebeu dinheiro da Odebrecht". Era dinheiro lícito ou provou-se ser ilícito? É certo que o recebedor sabia da origem, no caso de ilícita?

A hipocrisia domina. São milhares os políticos que receberam doações de empreiteiras e bancos desde que, por conveniência dos candidatos e artimanha dos doadores, esse dinheiro pôde se mover, nas eleições, sob o nome de empresas. Nos últimos 60 anos, todos os presidentes tiveram relações próximas com empreiteiros. Alguns destes foram comensais da residência presidencial em diferentes mandatos. Os mesmos e outros viajaram para participar, convidados, de homenagens arranjadas no exterior para presidente brasileiro. Banqueiros e empreiteiros doaram para os institutos de ex-presidentes. Houve mesmo jantares de arrecadação no Alvorada e pagos pelos cofres públicos. Ninguém na Lava Jato sabe disso?

Mas a imprensa é que faz o sensacionalismo. É. Com o vazamento deformado e o incentivo deformante vindos da Lava Jato.

A partir de Juscelino, e incluídos todos os generais-presidentes, só de Itamar Franco e Jânio Quadros nunca se soube que tivessem relações próximas com empreiteiros e banqueiros. A íntima amizade de José Sarney foi mal e muito comentada, sem que ficasse evidenciada, porém, mais do que a relação pessoal. Benefícios recebidos, sob a forma de trabalhos feitos pela Andrade Gutierrez, foram para outros.

Ocorre mesmo, com os vazamentos deformantes, o deslocamento da suspeita. Não importa, no caso, o sentido com que o presidente da Odebrecht usou a palavra "destruir", referindo-se a um e-mail, em anotação lida e divulgada pela Lava Jato. O episódio foi descrito como um bilhete que Marcelo Odebrecht escreveu com instruções para o seu advogado, e cuja entrega "pediu a um policial" que, no entanto, ao ver a palavra "destruir", levou o bilhete ao grupo da Lava Jato.

Muito inteligível. Até que alguém, talvez meio distraído, ao contar o episódio acrescentasse que Marcelo, quando entregou o bilhete e fez o pedido ao policial, já estava fora da cela e a caminho de encontrar seu defensor.

Então por que pediria ao policial que entregasse o bilhete a quem ele mesmo ia encontrar logo?

As partes da historinha não convivem bem. Não só entre si. Também com a vedação à interferência na comunicação entre um acusado e seu defensor, considerada cerceamento do pleno direito de defesa assegurado pela Constituição.

Já objeto de providências da OAB, a apreensão de material dos advogados de uma empreiteira, em suas salas na empresa, foi uma transgressão à inviolabilidade legal da advocacia. Com esta explicação da Lava Jato: só os documentos referentes ao tema da Lava Jato seriam recolhidos, mas, dada a dificuldade de selecioná-los na própria empresa, entre 25 mil documentos, foram apreendidos todos para coleta dos desejados e posterior devolução dos demais.

Pior que uma, duas violações: a apreensão de documentos invioláveis, porque seus detentores não são suspeitos de ilicitude, e o exame violador de todos para identificar os desejados. Até documentos secretos de natureza militar, referentes a trabalhos e negócios da Odebrecht na área, podem estar vulneráveis.

Exemplos assim se sucedem. Em descompasso com uma banalidade: condenar alguém em nome da legalidade e da ética pede, no mínimo, permanentes legalidade e ética. Na "nova Justiça" como reclamado da "velha Justiça" -  Artigo de Janio de Freitas. Na Folha

3 Comentários:

José Carlos Lima disse...

Moro tem usado de forma sistemática a tática de impedir, pressionar e constranger a defesa para que esta renuncie e em seu lugar assuma a advogada tucana Catta Preta, a rainha da delação, pra isso entra um sofisticado esquema de subjugo do réu que, como já ë sabido, faz parte um longo periodo de prisao e tortura do réu para que este aceite delatar e tem que ser aquilo que Moro e o MPF querem ouvir, ou seja, tem que ser "coisa nova", não vale dizer o que outros delatores já disseram, e a família do reu tmbm entra em campo para que faça parte da pressao no sentido do réu se dobrar e aceitar delatar conforme a vontade suprema do imperador de Guatánamo.,...saiba que é Catta Tudo, sic Catta Preta, a rainha da delaçao forçada

http://www.jornalggn.com.br/blog/spin-ggnauta/a-advogada-que-monitora-os-segredos-dos-delatores-da-lava-jato

Valdete Lima disse...

O que mais me entristece é que a desonestidade da mídia está formando seguidores. Assistindo ao Jornal da TV Cultura, o âncora anunciou que o delatante revelou que doou dinheiro ao Edinho. Mas, logo após, a Internet jogou no ar a lista que, na realidade o preso revelou. Quando eu estudei Jornalismo na extinta Gama Filho eu aprendi que o título deveria ser: ''Dentre as pessoas que receberam doações - não propina - está a campanha da atual presidenta Dilma''. Isto é o mínimo que um jornalista de bem deveria colocar em sua manchete. E eu não vejo sequer u, editorialista da grande imprensa dizer que Aécio ganhou mais que Dilma. Por que será... A Imprensa perdeu a credibilidade porque quis. Resolveu optar pelo: ''enquanto pior, melhor'' e vai pagar por isso. Não me arrependo de ter lutado uma grande parte da minha vida para ter o PT no poder. O que foi feito em 12 anos jamais será esquecido por nós.

Ricardo disse...

"Até documentos secretos de natureza militar, referentes a trabalhos e negócios da Odebrecht na área, podem estar vulneráveis".
Sabendo-se da espionagem norte-americana na Petrobrás, os interesses estrangeiros no pré-sal, as ilegalidades policiais e judiciais na operação "lava jato", a seletividade anti-petista e o caráter entreguista e golpista dessa operação policial-jurídica-midiática, o risco de vazamento criminoso de documentos de natureza militar da Odebrecht são ainda mais graves. O que fará o ministro da Justiça? Nada?!?

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